“Não se pode construir a casa pelo telhado”

António Sérgio Advogado e antigo árbitro, António Sérgio, actual presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF), apresentou em Janeiro de 1999, na altura como consultor jurídico, um estudo sobre a profissionalização da arbitragem em Portugal. Sete anos depois está mais pessimista do que nessa altura.

Controverso, mas ciente da realidade do nosso País, o líder da APAF, vai directo ao assunto, referindo-se às principais questões relativas aos homens do apito: “Se formos rigorosos e sérios, verificamos que não há condições financeiras para a profissionalização da arbitragem”, mantendo o tom, reforça a ideia: “Não temos dinheiro…não há dinheiro”.

Sempre cáustico, recordando que no nosso país fala-se muito, mas concretiza-se pouco, passa ao ataque: “Os estádios estão vazios, a televisão dá quase vinte jogos por fim-de-semana, entre as ligas portuguesa e as melhores da Europa. Como convencemos os amantes do futebol a gastar 25 €, no mínimo, para assistir a um jogo no estádio, quando com 20 € vêm diversos jogos na comodidade do sofá?”

Nas suas palavras, que saem escorreitas, nota-se a mágoa de quem gosta de futebol, mas percebe que não vamos no melhor caminho: “ Têm que se reformular os campeonatos. Fazer um campeonato em duas fases, à moda argentina, por exemplo. O que interessa ter dezasseis equipas na primeira Liga… a partir do oitavo classificado … já não há condições…”, os silêncios deixam perceber a revolta que sente.

Mantendo a agressividade no discurso, António Sérgio, volta ao fenómeno televisivo: “O destino é voltar ao tempo em que dava um jogo na TV, quando o rei fazia anos. Tudo o que for transmitir mais de dois jogos por fim-de-semana, já é muito”, reconhece, vislumbrando uma rotura indispensável.

Uma conversa que ultrapassa o espaço disponível, ideias que não param: “Não se pode criticar constantemente a indústria do futebol, com os dirigentes a dizerem mal, uns dos outros. Assim, como queremos que público vá ao estádio?”, mais um tema quente, mais uma pergunta que fica no ar.

Deixando no ar várias ideias, reveladoras da sua visão, não só sobre a arbitragem, mas como de todo o edifício organizativo do futebol luso, o presidente da APAF remata com uma ideia, definitiva: “Não se pode construir a casa pelo telhado”.

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